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O que será Olhão no futuro, ninguém,
nem nenhum plano de urbanização o poderá visionar. Não é impossível,
porém, que a incompreensão teimosa e pretensiosa dos homens pouco
esclarecidos lhe venha dar um carácter irreconhecível: através dum plano
sistematizar para a urbanizar banalmente, internacionalmente,
descaracterizando-a.
Ora, o aspecto panorâmico de Olhão é
único no País - e poder-se-ia dizer - único em toda a Europa, mesmo em
todo o Mundo - aspecto derivado da estrutura especial das suas casas,
pequenas ou grandes, estrutura que em menor ou em maior grau se conserva
ainda. E deve conservar-se.
Porque, se ao transformarem-se as primitivas cabanas em casas tivessem
estas terminado simplesmente por terraço-soteia, total ou apenas
parcialmente, não estaríamos ainda num aglomerado de casas diferente do
que se encontraria no campo em redor. Rareando os telhados cada vez
mais, aproximar-nos-íamos do aspecto de Tânger, de Muley-Idriss, de
Rabate, de Tunis. Se os terraços ou soteias fossem horizontais,
sem parapeito algum, estaríamos como na Síria ou outro Oriente qualquer.
Açoteias (ou soteias, como aqui se usa dizer com mais
arábica propriedade) há-as por todo o Algarve ou pelo menos por todo o
campo do Sotavento algarvio, - como pelo Sul da Espanha e por todo o
Norte de África desde Marrocos à Líbia... Há-as na Síria e na Pérsia
onde o cubismo das casas chega a ser perfeito, não tendo os terraços
rebordo algum...
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Em Marrocos,
porém, em especial, costuma existir um rebordo ou parapeito, mas
muito baixo; e se a razão estará em a soteia não ser utilizada
senão acidentalmente, encostando-se-lhe então uma escada de
madeira para tal fim, (escalier de fortune) – (pois as
mulheres estão pelo Corão proibidas de se exibirem sobre os
terraços - segundo me disse aqui mesmo, o ilustre Prof.
Lévy-Provençal), em Olhão, o caso muda completamente de figura;
porque a soteia é utilizada como uma dependência ou extensão, ou
ampliação do espaço livre da habitação e é assim aproveitada
para todos os mais diversos fins de utilidade ou recreio,
(nunca, porém, como um malavisado professor universitário de
geografia fantasiou: para recolher as águas da chuva para
cisternas (!) - que em Olhão nunca existiram, sendo o solo do
sítio do olhão, riquíssimo em poços, de água doce e salobra,
de vários lençóis subterrâneos.
Olhão não é
pois apenas um "mar de açoteias" (como a aldeia da
Fuzeta).
Em Olhão, o
panorama surpreendente inclui outra coisa: soteias sempre com
parapeito alto, sobre as quais, quando se não sobe a elas por
escada de pedra e cal vinda do quintal (nunca da rua, mas de
dentro da própria casa, rompendo-se então forçosamente o plano
da soteia), o problema foi resolvido não por meio dum alçapão
(como no Sul da Itália e na Suíça, por exemplo) mas por meio de
uma espécie de guarita: um pangaio, com um tecto
inclinado, e uma porta no topo ou no lado livre, ficando o
pangaio sempre num canto da soteia.
Ora este tecto
que começou sendo um tabuleiro coberto de telha mourisca,
tornou-se, com o tempo, de linha quebrada, sempre coberto de
telha; e mais tarde a sua parte terminal passou a ser
horizontal, servindo de tecto ao patamar quadrado, enquanto a
parte inclinada servia de tecto à escada.
Desde
então o revestimento de telha desapareceu, substituído pelo de
ladrilhos. Muitas vezes a chaminé cúbica e simples (nunca, em
Olhão, com ajuramento arrendado, como é típico para o interior
do Algarve) fica incorporada no pangaio ou coalescente
com ele. |

(Soteia de casa
alta com pangaio e degraus para o
mirante) |
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Mas não
bastaram aos olhanenses as soteias de parapeito alto com
pangaio. Em Olhão nasceu a ideia de pôr uns degraus sobre a
parte inclinada do pangaio e de por eles subir, como por escada,
ao pequeno terraço quadrado que então se circundou de parapeito
mais ou menos alto, à laia de púlpito.
E eis
surgido o embrionário mirante. Mas não se parou aqui, neste
rudimento: considere-se alargado o pequeno patamar de entrada na
soteia, ou construída sobre esta (sempre a um canto ou a um dos
lados, nunca ao centro da soteia) uma autêntica casa. E agora,
para tecto desta casa, em vez de um telhado que sistematicamente
se repudiou (apenas esporadicamente um ou outro caso se nota,
antigos todos), eis uma nova soteia, ladrilhada como a primeira,
e circundada de parapeito alto, um mirante, de seu nome próprio,
ao qual se sobe por escada exterior, de alvenaria, (não de
madeira ou ferro...), sobre um, dois ou três arcos assentes em
pilares finos ou em cachorros de pedra, metidos de través.
O mirante
fica assim naturalmente de superfície menor do que a soteia
sobre a qual se eleva, em geral a um canto, ou, se a meio,
encostado a um lado da soteia (nunca no meio da soteia a cobrir
lanternim de pátio interior, como se observa por vezes na
Andaluzia), visto que cobre a casa de cima da soteia (assim se
lhe chama) e não um pátio interior que em Olhão se não
conhece...
Por vezes, em
Olhão, a soteia fica reduzida a um pequeno quintal no 1.° andar,
sobrepondo-se-lhe então uma 2.a soteia a cobrir todo o 1.°
andar, soteia que pelas suas dimensões extensas não merece o
nome de mirante, mas o de soteia do prédio, propriamente. E
sobre esta soteia extensa eleva-se então o verdadeiro mirante.
(Vê-se assim que o nome de soteia se aplica ao primeiro e mais
extenso dos terraços sobrepostos e o de mirante ao 2.° e
naturalmente menor).
Sobre o
mirante eleva-se às vezes um outro mirante, similar,
ocupando, de lado a lado, metade aproximadamente do terraço do
primeiro; ou então, num canto deste, apenas uma espécie de
púlpito ou torre de vigia, a que se dá o nome de contra-mirante |

(Soteia de casa térrea com 1º e 2º
mirantes) |
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De qualquer
maneira porém: três terraços sobrepostos, em pirâmide. Por esta
ligeira análise, já o turista poderá orientar-se, contemplando
agora as gravuras aqui documentadas, onde essas e outras
realidades especificamente olhanenses se patenteiam.
Até agora não
se tem passado, em Olhão, desta sobreposição até três terraços;
mas compreende-se que um urbanismo consciente desta
especificidade cuja origem continua misteriosa, sendo, ao que
comprovadamente parece, única em todo o Algarve, em todo o
Portugal, em todo o Mundo mesmo, leve mais alto a espécie de
pirâmide de terraços... É que, por acaso, a pirâmide
apresenta-se por vezes mais ampla e mais numerosa... Sim: pela
coalescência de casas que ulteriormente se puseram comunicantes
por forma a constituírem um mesmo prédio, acontece que mais três
terraços se encontram a diferentes alturas...
Tal é, por
exemplo, o prédio em que habito, na Rua Vasco da Gama, n.° 20,
que apresenta nada menos de quatro, e do alto do qual os
turistas curiosos ou os estudiosos arquitectos... do Universo,
podem verificar, como inegáveis realidades, exemplares que se
metem aqui pelos olhos adentro, estas e outras novidades e
originalidades da estranha e misteriosa arquitectura local
olhanense, genuína, inerudita...
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(Soteia de casa térrea com
mirante e contra-mirante) |
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